Sunday, August 20, 2017

Do tempo contado e da eternidade

Gostava que os meus dias contigo fossem eternos, incontidos no normal compasso das vinte e quatro horas, e que todos os momentos que passamos juntos repousassem na fímbria da eternidade, sem o constante galopar dos segundos rumo à hora amarga da despedida, maldito compromisso que me corrói a alma.

Estendidos estariam os nossos dias pela imensidão de um areal infinito, sem rochas arribas ou cimento a delimitar o horizonte, e a largueza do mar em frente apelando aos sonhos de uma vida cheia, o tempo de sonhar a dois tão grande e inteiro quanto o areal e o mar.

Nem por isso deixaria de dar tudo para te ter aqui e agora, por escassos segundos que fossem, cair no teu abraço e sentir que o infinito está em cada instante que passamos juntos.

Vega, aka C.V.O.




Tuesday, May 23, 2017

Olhos que sentem

A ti meu amor que sabes ver
Para lá das palavras para lá da cor
A ti meu amor que fizeste crer
Na verdade de ser e amar sem temor

A ti meu amor quero agradecer
Os teus olhos em mim pousados
A ti meu amor vou corresponder
Com olhos que zelam por ti devotados


Vega, aka C.V.O.

Saturday, February 20, 2016

De sonhos e derrocadas

Andava como quem vagueia, sem rumo nem hora nem fito. Só o desespero das esperanças roubadas a fazia andar, porque parada não conseguia estar… a impaciência das expectativas a caírem em catadupa, como peças de dominó, era demasiada para a conseguir suportar quieta.

E assim andava, em linha curva ou recta, tanto fazia, fustigada pelo vento que rugia cada vez mais forte, como se viesse acudi-la nesta aflição de não ter para onde se dirigir. Praguejava contra o vento, mas se não fosse o vento seria outra coisa qualquer, que o problema, sabia ela muito bem, era a injustiça de lhe terem varrido os sonhos coleccionados com tantas expectativas, pensamento positivo como sempre lhe tinham dito e que por norma recusava, e agora, que finalmente seguira o conselho, vira tudo deitado por terra com o raiar de um sopro que chegou para tombar as peças de um castelo! Como eram frágeis essas peças e esse cimento…

Ela quer chorar mas não consegue, já foram muitas as lágrimas que deitou (noutros tempos, outros desgostos), agora a dilaceração é tão funda que as lágrimas, do fundo do poço, só com muita dificuldade conseguem emergir.

Mas, entretanto, sente a cara molhada... (serão lágrimas a chegar? não, que o pranto está bem vedado, ninguém sabe a cheia que lhe vai na alma…) São  - imaginem! - flocos de neve!, neve a cair e a embotar-lhe a vista, a tapar-lhe os caminhos que já se tinham fechado, agora é que vai tropeçar e cair como uma peça de dominó… mas isso tanto lhe faz, pouco importa cair ou continuar a andar, também só anda para não estar quieta, já que quieta não pode suportar.

O frio, cada vez mais frio, entorpece-lhe os movimentos, teme não conseguir andar mais, vê-se obrigada a abrandar. Há pedaços de gelo que lhe cobrem os pés, agora as mãos, o cabelo, tudo… E ela vai-se deixando ficar, assim como assim, também já não se importa de estar parada, tanto lhe faz, fica por ficar, bem pode chover ou nevar ou fazer sol, que os caminhos para ela deixaram de existir, entre ziguezaguear e estar parada que venha o tempo e escolha, como está a acontecer.

Quando dá por si, nem se mexe, o corpo parece pedra, coberto de gelo. Tenta raspar um pedaço de gelo mas o braço não lhe obedece… tenta rodar o pescoço mas o movimento não sai… quer pestanejar mas as pálpebras não cedem um milímetro (e que secos estão os olhos!). Enfim, rendida às evidências, apercebe-se de que transformou numa autêntica estátua. Uma estátua, vejam bem! Se tivesse podido escolher, há umas horas atrás nesta angústia, seria precisamente numa estátua em que se tornaria! Assim ao menos não vê, não ouve, não espera, não desespera, não sofre.

Mas ah... afinal ainda consegue ouvir (embora uns decibéis abaixo do habitual). Há um som familiar que lhe vem do bolso de pedra, é o telemóvel que está a tocar. O que será que lhe querem agora, quem a vem importunar nesta pausa sabática de sentidos?! Devagar, em câmara lenta (eufemismo para um braço de pedra embrulhado em gelo), tenta alcançar, contrafeita, o telemóvel que toca sem parar… E eis que vê o nome a aparecer no visor e mal consegue acreditar… aquela pessoa, a única pessoa que ela acima de tudo desejava, mas que estava longe, despejada de expectativas, de que a viesse procurar! Apetece-lhe gritar, correr e saltar… Por dentro já grita e salta e corre e por fora - acaba de reparar! - já nada mais a prende: foi-se o gelo que a cobria, e a pedra em que se transformara voltou a ser carne e osso, e veias que pulsam a uma velocidade estonteante.

De repente, também o chão se transformou, por baixo da neve que derreteu aparecem flores em campos ilimitados, e uma estrada ampla de terra, ladeada de arbustos e canteiros, está mesmo em baixo dos seus pés. Sem poder esperar um segundo, dispara a correr pela estrada fora, com a alma cheia de sonhos, em direcção ao castelo que vê lá ao fundo.


Vega, aka C.V.O.

Tuesday, January 12, 2016

Baú de sonhos

Tenho sonhos guardados num baú. Tantos sonhos, e tão grandes… que aguardam desde longe (desde quando?) a hora de saltar. Têm os seus dias, como todos nós. Alturas há em que, de ânimos exaltados, incapazes de aguentar um segundo que seja, agitam-se, acotovelam-se, tentam arrombar a tampa. Mas oh!, logo a seguir há uma voz que sopra, em surdina, que os sonhos assim forçados a sair jamais voarão tão alto como os largados de forma livre…  e mais, que esses sonhos, largados antes de tempo, estão condenados a cair. Pois então lá respiram fundo, sossegam, esforçam-se a todo o custo (em nome de um bem maior!) por acalmar os ânimos… E toda a força que têm (e que nem imaginavam ter!), toda a força que têm vão concentrar, em uníssono, para fazer figas, muitas figas até sangrar… para que, em breve, uma milagrosa chave os venha libertar… e aí sim, lançados de rompante aos céus, vão poder voar bem alto, bem longe, para lá da estratosfera… E quando tocarem nas estrelas, vão perceber que valeu a espera, valeram as horas de perseverança, valeram os anos de tropeções dentro do baú atarracado.

Vega, aka C.V.O.

Thursday, March 12, 2015

Se todos os caminhos dessem ao mar

Todos os caminhos deviam dar ao mar, e terminar na orla de espuma que me incita a entrar, num apelo desesperado e irresistível, contra ventos e correntes e ondas que ao rebentar parecem três vezes aquilo que são.

Todos os caminhos deviam ser livres, pelo menos no final, abertos à largura da alma… límpidos e impolutos de tensões e guerrilhas pessoais, com finais de paz e amor e libertação total, premiados da invencibilidade de ser livre e viver em paz.

Se todos os caminhos dessem ao mar, eu seria tão, mas tão mais feliz…

Vega, aka C.V.O.

Monday, March 17, 2014

Procuro...

Procuro a tua sombra em todos os sítios, e nela um relume teu para me confortar… Mas a tua sombra, tão fugidia, tão pouco nobre a te representar, não chega, não tem chegado para me acalmar.

Procuro no mar a cor dos teus olhos, mas nem o azul profundo do mar, nem o azul mais claro do seu espelho no céu, a intentam igualar… (são baços todos os azuis, quando comparados ao teu olhar.)

Procuro os teus gestos em vultos elegantes, mas nem o mais principesco dos vultos te consegue imitar…

Quando só me resta esquecer, procuro uma cópia tua (ainda que infiel…), um rasto da tua luz, para não deixar de te ver...

Vega, aka C.V.O.


Friday, December 13, 2013

OIhos tristes

Triste, porque tristes são os meus dias
Embora com capa de risos
E flores para enfeitar.
Olhos que choram, indecisos
Mas continuam a falar
Como se diferença fizesse
O que possam dizer ou pensar.

Neste mundo surdo e oco
Quem sente e chora é louco
Para os loucos não há lugar
Os lugares estão preenchidos
E os meus olhos excluídos
Deste mundo descartável.
Olhos tristes, ressentidos
Cresceram a acreditar
Num mundo inefável.
A cada dia desiludidos
Não têm onde fitar
Olhos vazios, abatidos
Já nem se concedem sonhar.

Vega, aka C.V.O.